O Castelo de Ricardo Wendhausen (Doctor Shape)

A história abaixo foi enviada por um legendário personagem do Pier de Ipanema. Grande Zeca Proença: não há surfista que não o conheça e se existir, é porque está fora de estação ou dimensão. :)

Temos a honra de contar com sua constante participação e força nesse site, onde é um dos fundadores e também guardião, além de dedicar-se a sua banda Piratas do Rio.

Esta é uma das muitas histórias que temos para contar, histórias do Castelo de Ricardo Wanderbill, um dos maiores, senão o maior Shaper de nossa história. E o narrador sou eu: Zeca Proença, Surfista da velha guarda, compositor e musico profissional, e senta que lá vem História.

Saquarema

Saquarema, início dos anos 70, terra das melhores ondas do Brasil, eu e meu irmão Paulo Proença, Otavio Pacheco e Fabio Pacheco, estávamos sem muito espaço na fábrica de Parafina WaxMate, (1ª do Brasil), localizada em Itaúna, pois crescíamos rapidamente e fora a parafina que estava por todos os lados, vivíamos cercados de um amontoado de pranchas, roupas de borracha, guitarras, amplificadores e até uma bateria, que ficava montada no meio da sala que embalávamos as Parafinas. Numa manhâ de Sol, Ricardo Wanderbill e Petti, invadem a fabrica atrás de um pedaço de Wax para passar na Prancha, pois Itaúna estava perfeito... Ricardo vendo nossa situação disse:

- aluguei um Castelo em frente à Praia da Vila na Cidade e a Torre esta desocupada.
Peti ainda acrescentou com seu jeito de Menino do Rio:
- Não é nenhuma cobertura duplex em frente ao Arpex, mas é uma bela torre em frente à praia da Vila. (gargalhadas geral).

Imediatamente pegamos nossas coisas e fomos rumo à ocupação da Torre do Castelo de Dom Ricardo Wanderbill, obviamente depois de pegarmos as direitas perfeitas de Itaúna.

O Castelo

Era verdade, não era uma história de Brancaleone e seu exército, o Castelo era um fato e logo se tornaria uma das grandes Fábricas de pranchas do Brasil, as pranchas feitas por Wanderbill eram um sonho de consumo de todos . Dentro do Castelo moravam Ricardo, com sua companheira Martinha e seu filho Daniel .

Lembro que logo nos primeiros dias no castelo, do alto da torre avistamos umas Baleias fazendo evoluções na beira da Praia, as acrobacias duraram quase o dia inteiro, a praia ficou lotada, veio gente até de Bacaxá para assistir o Balé dos Mamíferos.

Nesse tempo Paulo e Otavio estavam constantemente em viagens para o Hawai, por isso eu vivia sozinho na Torre e logo assumi o posto mais maneiro de uma Fábrica de Prancha, Piloto de Prova das pranchas produzidas no Castelo. Uma vez Ricardo cismou de inventar uma prancha com uma rabeta nova, a rabeta tinha a forma de um rabo de peixe, com um swalow no final e asas na lateral. A prancha voava alto e foi aprovada totalmente.

Shaper

Wanderbill se iniciou na fabricação de pranchas na Fábrica do Coronel Parreiras, a São Conrado Surfboards. A chegada dele em Saquarema, proporcionou a população local, mais informações sobre o surf, ensinando a arte de laminar uma prancha, fazer quilhas e dar polimento a alguns locais como Siqueirinha, Selmo e outros. Ele começou uma nova geração de empregos na cidade, conquistando o respeito pelo esporte na região.

Uma Manhã abrimos os Portões do Castelo e deparamos com um jovem dormindo em frente ao portão e ao perguntarmos o que ele fazia ali, ele respondeu que tinha ouvido falar do Castelo do Wanderbill que era uma fábrica de pranchas, que era de Espírito Santo e fanático pelo Surf e que tinha que conhecê-lo. Wanderbill o recebeu, deu café da manhã e em seguida fomos à cidade ligar para a família do garoto comunicar o que estava acontecendo. O guri ficou mais de um mês morando com a gente, surfou as melhores ondas do Brasil e no final ainda saiu de lá com uma prancha Wanderbill. Vocês nem imaginam o tanto de capixabas que este episódio trouxe para Saquarema.

Tito Rosemberg

Na era do Pier, Tito Rosemberg que acabava de chegar da Califórnia, nos proporcionou um momento engraçado, que reflete bem a personalidade do Wanderbill.

Tito casado com uma Californiana, chegou cheio de novidades, ele fazia o shape e ela encapava as pranchas com as ultimas técnicas da Califórnia. A prancha saía um show.

Eu tinha guardado um dinheirinho para fazer uma prancha e chamei o Cauli para visitar a oficina do Tito, chegando lá o Tito mostrou todas suas pranchas, e comecei a passar as especificações da prancha que queria, tamanho, forma, rabeta, cor, etc... nesse momento entra pela porta Ricardo Wanderbill, que fora fazer uma visita ao seu velho amigo Tito.

Ao ver eu e Cauli, dois surfistas que sempre corríamos com suas pranchas, na oficina de um concorrente, ficou revoltado, olhava para nós como dois traidores, Cauli se esquivou e deu a entender que não estava comprando prancha nenhuma, só me acompanhando.

Fiquei quieto e esperei Wanderbill acabar sua visita, logo após fiz minha encomenda. A prancha do Tito ficou alucinante e em compensação Wanderbill ficou sem falar comigo um tempo. Tempos passaram e ele esqueceu e voltou a fazer uma prancha para mim.

Wanderbill

Wanderbill fazia pranchas para a nata do surf nacional e quando foi morar no Hawai, assumiu o posto de shaper na melhor Fábrica de pranchas do Mundo, a Dick Brewer Surfboards e foi durante muito tempo o Shaper dos melhores do Mundo. Vivi momentos inesquecíveis com este saudoso amigo. Eu e muitos da minha geração, como Peti, Otavio, Paulo, Betão, Bocão, Mudinho, Berenguer, Kadinho, Broca, Ludo, Fabinho, Cauli, De Biase, Mobral e vários Paulistas como, Paulo Tendas, Paulo Issa, Paulo Sefton, Sidão, Thiola, etc.

Ricardo Wendhausen ou Ricardo Wanderbill esteve sempre conosco, seja com sua presença ou com suas pranchas magníficas, shapeadas por mãos de artesão.

Qual surfista da minha geração que não sonhou em ter uma prancha Wanderbill ? Se não sonhou, não dormiu em frente a Praia de Sleepbag.

Aloha Wanderbill.

Zeca Proença
Na foto (da esquerda para direita): Daniel, Wanderbill e Paulo Aragão


Chega mais e troque uma ideia