Por Coyote (vulgo, Marco Telles)

Muitos me perguntam o que foi o Pier de Ipanema.

Teoricamente, uma obra faraônica para construção de um emissário submarino que despoluísse as praias do Rio. Como a maioria daquelas obras, deu com os burros n'água. Coisas do Brasil. Ou melhor, de nossos governantes. Ou melhor ainda, de alguns deles.

Mas pensando e refletindo, o que representou aquele amontoado de ferros mar adentro e como pode produzir tantas histórias?

Seria a energia dos quatro elementos juntos: metal, madeira, água e fogo? É uma hipótese.

Foto: Soldon

O fato mais bizarro é como ele produziu tantas emoções [profundas] em todos aqueles que ali passaram. Hoje, junte meia-dúzia de remanescentes do Pier de Ipanema e saiba que vai rolar muita alegria, muita emoção, muita saudade e ao final, muita melancolia porque já dizia nosso amigo e também local Cazuza: "o tempo não para". E acrescento, é cruel!

É... Tudo leva a crer no poder dos quatro elementos: metal, madeira, água e fogo. Só pode ser isso. Não vejo outra explicação.

Mas e a emoção? Seriam os momentos que passamos por lá o responsável por tanta emoção, tanto saudosismo? Momentos intensos de uma vida intensa [ou louca]?

INTESIDADE!


Eram dias "comuns" mas extremamente intensos. Não éramos conduzidos ou empurrados pela vida. A vida nos levava sim, como é de sua natureza mas havia uma cumplicidade entre nós. Essa palavra resume o que representou o Pier de Ipanema: INTENSIDADE.

Fomos  intensos e a vida foi intensa conosco. Simples assim!

E talvez por isso o período Pier de Ipanema tenha sido tão curto. A intensidade é efêmera. Foi assim com intensos como James Dean, Ayrton Senna, Jim Morrisom, Jimy Hendrix, Janis Joplin, Cassia Eller, Renato Russo, Cazuza, Peti (o Menino do Rio) e tantos outros... Aí alguém pode dizer: “Haaa, mas não tem nada a ver, o estilo de vida dessas pessoas é que fez isso”. Será? Tem tanta gente que leva o mesmo estilo e continua por aí... Talvez porque lhes falte a intensidade.

Quando uso a palavra intensidade, é no sentido de totalidade, profunda concentração e atenção ao momento. É acordar e observar o despertar de nossa consciência. É ir ao banheiro lavar o rosto e observar cada gesto, cada ação, estar totalmente mergulhado no ato de lavar o rosto. Intensidade é estar atendo a cada detalhe de nosso dia a dia. É se entregar completamente a cada momento sem que nossa mente nos conduza a outros pensamentos.

Nós éramos felizes e sabíamos disso!

É fácil relatar como era nosso dia. Fazíamos as mesmas coisas que os jovens fazem hoje, só que num mundo real [hoje é feito via Instagram, Facebook e WhatsApp]: acordar cedo, ir a praia, pegar onda, encontrar a galera, jogar conversa fora, paquerar, festas à noite, barzinhos, mas.... Tudo era naturalmente intenso.

A violência muito menor talvez seja um fator também.

Me lembro, ou melhor, não consigo esquecer, das noites passadas na praia onde nos reuníamos para bater papo ao som de um violão que sempre aparecia. Não me lembro de ter tido a sensação de medo naquela época. Rolava as vezes um pouco de apreensão quando o camburão parava no calçadão e os “meganhas” vinham em nossa direção. Também não me lembro de ver eles altamente armados. Vinham caminhando na boa (tá, nem sempre rs), chegavam, davam uma geral e iam embora. Obviamente quando não encontravam nada (rs). E se encontravam algo, éramos “educadamente” conduzidos a delegacia onde nossos pais, carinhosamente eram chamados para nos levar aos devidos lares. :D

Foto: Fedoca

As noites eram mágicas. Percorríamos as ruas de Ipanema, olhos atentos aos prédios e ouvidos ligados em busca de quaisquer indícios de festa rolando. E sempre tinha uma. Ficávamos atentos aos playgrounds, onde havia uma vista para a rua com as pessoas amontoadas no parapeito e o som alto. Quando entre essas pessoas, havia uma maioria feminina, a tática era “azarar” alguma das meninas para que ela colocasse nossa tribo para dentro. Quando a dona era mulher ficava mais fácil ainda. Desde que ela não tivesse namorado, claro. Foram muitas festas assim.
A melhor delas e que jamais esqueci, aconteceu num réveillon em Copacabana numa bela cobertura. Por "coincidência", de um colega de escola, o "Sansão", que naquele momento “automagicamente” tornou-se meu melhor amigo.

Que festa de arromba, diria Erasmo Carlos. Ao entrar "Sansão" indicava os pontos estratégicos: o tanque na área de serviço repleto de latas de cerveja e gelo que nunca esvaziava [por mais que a gente tentasse], o buffet farto que nem cheguei perto, os banheiros e outras coisitas mais. Típicas da época. Era uma verdadeira "festa de bacana", termo usado para rotular festas assim. Mas sem sacanagem! Só lembro de ter tido nessa madrugada 2 namoradas. Sim, namoradas. E não ao mesmo tempo. Foi-se uma, veio outra. Naquela época não "se ficava". Apesar de tão pouco tempo, foram intensas (rs). Já dizia nosso amigo Vinícius, o de Moraes: “Que não seja infinito, mas que seja eterno enquanto dure”. Não me lembro dos detalhes por causa do alto teor alcoólico no sangue, mas guardo flashes desses momentos. Flashes prazerosos. Flashes de beijos, abraços, paixões, gargalhadas, cabelos castanhos, fragmentos de memória.... Bons momentos com certeza.
Bela festa! Valeu Sansão!