Por Alexandre Franco Sandy

Jangadeiro - Quem já comeu um Delirium Tremens? Eu comi!

Delirium Tremens: Forma de perturbação mental passível de ocorrer em alcoólatras e em viciados em ópio, e caracterizada por tremores, suores, dor precordial, agitação e alucinações terrificantes.

Não é incomum, num bar, haver pessoas cujo grau e progressão do alcoolismo as tenham levado a experimentar um delirium tremens. No Jangadeiro não podia ser diferente: havia muitos bebuns neste estágio, só que nem sempre assumidos. Este foi o caso de alguns amigos e comensais que acompanhavam os atores Cecil Thiré e Antônio Pedro. No início da década de 60, como relata Alcino Pacheco – eu era muito criança e dormia cedo- havia os clientes que não estavam nem aí para o horário de fechamento do restaurante, rigorosamente às duas da manhã. Uma imposição do velho Franco.

Não obstante o professor Franco ter deliberado que o funcionamento da casa só iria até as duas, os recalcitrantes boêmios da época continuavam tranquilamente bebendo, só que com as grades metálicas já abaixadas, para evitar que outros pés-de-cana chegassem e retardassem ainda mais o horário efetivo de descanso dos garçons e cozinheiros. O clima, que já era bem informal, se tornava ainda mais intimista com as portas fechadas, ambiente que era propício a que o chope descesse ainda mais redondo.

Na mesa dos habitués rolavam papos políticos, intelectuais e até abobrinhas. Não era uma mesa com poucas pessoas e a rotatividade era intensa, sempre tinha um bebum diferente. Um destes bebuns avistou certa vez um coelho passeando perto da porta que dava acesso aos vestiários e ao escritório de meu avô, Victor Fleisher, o velho Victor, ou, simplesmente, seu Vito. O cara ficou na dele, com medo de que fosse um Delirium Tremens, o cara ficou muito na dele, caladinho, se falasse, estava na cara que os amigos o levariam para casa recomendando que o internassem em algum manicômio. “Já está tendo alucinações, até coelho no Janga ele viu!”, diriam certamente.

Acontece que o coelho era real. E não apenas esse cara o havia visto. Quase todos haviam visto o coelho às altas horas da madrugada. Segundo Antônio Pedro, num papo que tivemos em 88, fora do Janga, em outro bar, quase à frente do Janga da Teixeira de Melo, 20, ele mesmo viu o coelho, só não assumiu seu suposto desvairamento. Conta o ator que todos haviam visto o coelho, mas todos se silenciaram com o temor de que fossem tachados de pés-inchados inveterados, isto é, bêbados prestes a serem internados em casas de repouso, um eufemismo para manicômio ou hospício, em virtude de já estarem apresentando o que em psiquiatria é definido como percepção do ausente, ou do inexistente, ou ainda, percepção alterada de objeto presente, enfim, o que anos mais tarde os loucos do Píer chamariam de “visual maneiro”. Antônio Pedro foi mais longe em suas lembranças. Pelo que contou e me encantou, certa noite um nordestino conhecido pela galera da mesa e do bar, um sujeito simplório que aparecia à noite para pedir uma garrafa de Steinhaeger ou de Whisky emprestada para o Merpuga, onde funcionava uma sinuca 24 horas e onde fazia alguns bicos, cujo apelido era Pará, viu o coelho e exclamou: “Vixe, um coelho, ó xente! Que susto! Se tivesse ratazana daquele tamanho, agente tava perdidim!” .

Os frequentadores habituais ficaram atônitos e, ao mesmo tempo aliviados, pois era público e notório que Pará jamais bebera.  Aí veio a zona total em que se transformou a casa. De repente todos os amigos e "copoanheiros" se abraçaram, como se fosse uma comemoração de Ano Novo. Ficaram felizes e aliviados por não ter sido uma alucinação coletiva. Nesta hora, com todos assumindo terem tido a “visão”, cada qual à sua maneira, comemorou-se como se fosse passagem de ano. Era um coelho de verdade!

Meu avô, temendo uma visita indesejável da Saúde Pública que, segundo sua experiência, certamente apareceria no dia seguinte, pegou o coelho e com a caixinha de papelão onde guardava a féria, subiu os dois lances de escada do prédio (vila) vizinho, onde até hoje meu pai mora, e deixou o coelho no primeiro cômodo de um apartamento todo adaptado. Este cômodo era um quarto de serviço, onde se passava, guardavam-se mantimentos da família e onde a cunhada dele, minha tia-avó Jeanette, havia deixado um piano de parede, não um Steinnway, mas era instrumento musical de pedigree. O coelho era alimentado e bem tratado, mas cismava em roer s preciosos pés do piano de minha tia-avó.

Dona Jeanette morava em Teresópolis, onde tinha um hotel, o Residência. Foi uma concepção muito avançada do marido dela, que nos fins de 40 construiu o Hotel Residência, o primeiro apart hotel de toda a América Latina. Não se usava o elegante nome de Flat, mas sim de quitinete, mas, ainda assim, era muito elegante ter uma quitinete de veraneio. Muitas vezes a velha tinha que tratar de assuntos na capital e, mesmo tendo um apartamento próprio (onde vim a morar séculos depois), ela sistematicamente se alojava em nosso apartamento de Ipanema, sob o pretexto de ficar um pouco com minha avó materna, Brigitte. Era tudo conversa, no fundo ela gostava mesmo era do carteado vespertino regado a chope vindo direto do barril em uma vasilha de prata de meu avô. Até que não sei por que cargas d’água, a velhota foi até a salinha multiuso e viu o bicho comendo cenouras, alegremente.

Sem que soubéssemos do que havia se passado, crianças ainda, tivemos um lauto almoço, um opíparo e lauto ágape para um dia comum, de semana, dia de aula. A carne estava deliciosa e suculenta. Nunca havia experimentado algo parecido. Perguntei à Dona Maria, nossa cozinheira, o que era aquilo que estávamos comento. Levei um baita beliscão de minha mãe por debaixo da mesa. Sinal de que eu fizera algo que não devia. Putz! O pior é que fiquei sem saber no dia e também no dia seguinte. Quando estava sozinho em meu quarto, minha mãe entrou e perguntou se estava tudo bem comigo. Como a resposta foi afirmativa, ela aproveitou e perguntou se eu havia ido à saletinha multiuso na véspera e naquele dia. Havia uma janela alta que ligava o corredor de entrada do apartamento ao  tal quartinho, só que eu era baixo demais para ver algo por ali. Aquilo era coisa para quem tivesse altura de Gúliver, isto é, mais do que um metro e meio. Eu não havia notado nada de incomum. Então minha mãe, quase que num suspiro de alívio, disse que o coelhinho tinha ido embora. Eu perguntei o por que de levarem o coelhinho. Ela, com paciência de mãe, disse que Titia Jeanette havia bronqueado por causa dos pés do piano roídos e ameaçou tirar o piano dali caso não se desse cabo do roedor. Como todos os irmãos estudavam música e o piano era essencial para o entendimento da teoria musical, optou-se – a contragosto – “levar o coelho embora”. Aceitei e continuei a fazer o que estava fazendo. Dias mais tarde pedi à Dona Maria, na cozinha, só havia ela e eu, para preparar outro “rango responsa”, igual ao da semana passada quando Titia Jeanette esteve conosco em casa. Ela, num ato falho flagrante, se perguntou olhando para cima, onde arranjaria outro coelho daquele tamanho....

Bem, não sou burro. Somei dois mais dois. Fui ao restaurante, entrei direto no vestiário e meu avô estava lá em seu escritório trabalhando. Perguntei-lhe sobre o coelho, e veio a velha história de que havia ido embora. “Ah, Vô, disso eu já sei. Quero saber onde e como se faz para arrumar outro: estava uma delícia!”...

Somente em 88, com as comemorações dos 50 anos do Jangadeiro, é que fiquei sabendo das “alucinações” do Cecil, do Antônio e de mais uma série de pessoas que tiveram um pseudo-delírio. Eu me lembrei do gosto do delírio, tava bom pra caramba!