Por Carlos Edyl Santiago Filho (In memoriam)

Falávamos de sonhos, e suas derivações projetadas no cotidiano, alimentando de horizontes o tempo acordado de viver. E enquanto falávamos, imaginei se alguém não nos estava sonhando naquele exato momento, um sonho daqueles que se apaga da memória com a água fria que nos lava o rosto, ou daqueles sonhos que se perpetuam como tatuagem na superfície lisa da sensibilidade. Era o que eu sempre quis: habitar um tempinho nos sonhos alheios, bisbilhotar a intimidade pura da amada que eu quis amante. E depois, como um Quixote flertando moinhos, a levaria para enveredar em sons e poesias que compõem a atmosfera que respiro, seguindo a inevitável sina de aquariano meio louco meio varrido...

(...) a fada esvoaçante baila ao som de uma sinfonia ouvida nos primórdios da adolescência. E me convida a dançar. Sou Quixote, mas não sou bobo, e bailo com ela por nuvens de vapor que arrepiam a pele. Se sinto frio, ela me abraça. Se sinto, calor, ela me despe. E deixa seu vestido esparramado pela sala enquanto corre para debaixo da cachoeira. Definitivamente, sinto seu corpo incorporado aos meus poros. Mas tem um dia que começa no fim da noite, no fim do sonho. As horas de sono transformam em saudade o que era abandono. E acabei acordando mais cansado que sozinho com uma tatuagem estampada como uma cicatriz. Adivinho seu nome nas rimas lógicas que dizem o que não fiz. Porque não quis. E deixo fluir pelo papel branco, traços azuis rabiscados sem nexo. As palavras não têm sentido. O sentido não tem importância.

Em súbitas aparições, uma estrela que estava no fundo do mar volta a incomodar. Uma fada de olhar triste e que voa com as mãos nos cabelos, me saiu do sonho e esparramou feitiço pelas ruas por onde me atraso. E enfeitiçado, me apaixono. Apaixonado, me abandono. Abandonado, perco o sono.

E penso que a adoro eternamente. Plenamente. Mas não adiante. Ela nunca me leva a sério. Acha que sou meio louco, meio varrido...